Júlio Resende

1917-2011

 

Júlio Martins Resende da Silva Dias nasceu no Porto a 23 de Outubro de 1917. Era o segundo dos quatro filhos de Manuel Martins Dias, comerciante, e de Emília Resende da Silva Dias, professora de Música no Conservatório do Porto. Foi baptizado a 19 de Novembro desse ano na paróquia da Vitória.

Habituado a viver num ambiente artístico, dotado de forte cultura musical, desde cedo se dedicou à pintura e à ilustração. Este caminho que escolheu para a sua vida gorou as expectativas dos progenitores, esperançados em que o filho optasse por uma carreira musical ou por uma comercial. Com a ajuda de Aurora Jardim, colaboradora de dois dos mais populares periódicos do Porto, do Jornal de Notícias e d’ O Primeiro de Janeiro, foi encaminhado para as aulas de desenho e pintura da Academia Silva Porto, orientadas por Alberto Silva. No entanto, apesar desta aposta num futuro artístico, para agradar ao pai trocou o curso liceal por um curso comercial entre 1934 e 1935.

Em 1935 participou na Grande Exposição dos Artistas Portugueses e retratou o avô materno a lápis, num trabalho assinado, pela primeira vez, com o nome Júlio Resende, em homenagem à mãe.

Passados dois anos, matriculou-se na Escola de Belas Artes do Porto, sendo discípulo, entre outros, de Dórdio Gomes. Por dificuldades financeiras decorrentes da má situação económica da loja paterna, viu-se obrigado a suportar sozinho as despesas do curso, através da venda de trabalhos gráficos, como desenhos publicitários, banda desenhada e ilustrações. Desta faceta menos conhecida da sua obra, que se prologou temporalmente dos anos trinta aos anos setenta, podem destacar-se as histórias de Matulinho e Matulão, publicadas n’O Primeiro de Janeiro, entre 1942 e 1952, e as colaborações nas Revistas Infantis O Papagaio e Tic-Tac.

Em 1938 apresentou uma obra na exposição de alunos do pintor Alberto Silva e em 1940 desenhou a lápis o Retrato da minha Avó, que assinou com o apelido materno – Resende, nome que manterá definitivamente.

No ano de 1943 casou com a colega de escultura, Maria da Conceição Moutinho, estreou-se a expor individualmente, no Salão Silva Porto, e participou na criação do Grupo dos Independentes, uma associação de artistas da ESBAP, como Júlio Pomar, Nadir Afonso ou Fernando Lanhas, de sensibilidades variadas mas unidos na crítica ao academismo e na proximidade ao movimento neo-realista.

A carreira de docente iniciou-se em 1944, na Escola Industrial de Guimarães, no ano em que proferiu uma palestra no Instituto Britânico do Porto, sobre Gravadores britânicos.

Em 1945, expôs no Porto e ganhou os primeiros de muitos prémios.

Integrou a nona Missão Estética de Férias em Évora. Começou a pintar quadros com temas alentejanos. Durante uma estadia em Madrid, onde visitou o Prado, museu que o fascinou sobretudo pelas obras dos pintores Goya, Solana e Vázquez Díaz, tendo tido a oportunidade de conhecer este último. Nesse ano, terminou a licenciatura em Pintura com o quadro Os Fantoches, classificado com dezoito valores.

Em 1946 criou um curso de arte no Instituto Britânico do Porto. Expôs pela primeira vez em Lisboa, ilustrou um livro de Adolfo Simões Müller e ganhou uma bolsa do Instituto para a Alta Cultura, para aperfeiçoamento da técnica da pintura no estrangeiro. Ainda nesse ano, partiu para Paris com a mulher e a filha.

Entre 1947 e 1948, já sem a família, estudou as técnicas de fresco e gravura na Escola de Belas-Artes de Paris e na Academia Grande Chaumière. Foi discípulo de Duco de La Haix e de Othon Friesz. Copiou os mestres da pintura no Museu do Louvre e visitou outros museus de referência, na Bélgica, na Holanda, em Inglaterra e em Itália.

No regresso, em 1949, trabalhou como professor na Escola Industrial e Comercial Carlos Amarante, em Braga, e, depois, na Escola de Cerâmica de Viana do Alentejo (1949-1951), lugar onde criou as bases da sua obra e produziu quadros que reflectem as suas preocupações humanistas.

A primeira exposição individual no exterior aconteceu em 1950, em Kristiansund, na Noruega. Em 1951, de novo em Portugal, expôs no Palácio da Foz, em Lisboa. Na capital contactou, com o escritor Vergílio Ferreira e com os artistas Júlio, Charrua, Almada Negreiros e Eduardo Viana. Foi convidado a visitar a Noruega, país a que regressa em 1952. Por essa altura, visitou também a Dinamarca e realizou um fresco, o primeiro dos seus murais, para a Escola Gomes Teixeira no Porto, onde leccionava.

Nesta fase também produziu inúmeros murais cerâmicos para edifícios, públicos e privados, obras que se inseriram no contexto da reutilização do azulejo na arquitectura nacional dos anos 50 e 60. Neste capítulo da arte pública, colaborou com notáveis arquitectos nacionais, em especial com a dupla José Carlos Loureiro e Luís Pádua Ramos (na Pousada de Bragança, no Hotel D. Henrique, na Casa Sical, no Edifício da U. A. P., no Edifício da Companhia de Seguros Tranquilidade, nas Torres Habitacionais da Pasteleira, no Conservatório de Aveiro e no Hotel Solverde de Espinho).

Em 1953 instituiu as Missões Internacionais de Arte, que se estrearam em Trás-os-Montes, e voltou ao Porto. Nos dois anos seguintes, na Póvoa de Varzim, deu aulas na Escola Comercial e Industrial e promoveu a segunda edição da Missão Internacional de Arte.

Com o arquitecto João Andresen e o escultor Barata Feyo integrou, em 1956, a equipa vencedora do concurso para o monumento do Infante D. Henrique, em Sagres, com o projecto Mar Novo. Todavia, esta obra não viria a ser concretizada por não ser do agrado de Oliveira Salazar. Nesse ano, terminou o curso de Ciências Pedagógicas na Universidade de Coimbra.

Sem perder o alento, organizou, em 1957, a exposição 4 Artistas Portugueses em Oslo e Helsínquia, e pintou quadros sobre o Porto e a Póvoa. Em 1958 promoveu a 3ª Missão Internacional de Arte em Évora e foi convidado a dar aulas na Escola Superior de Belas Artes do Porto, como assistente de Pintura de Dórdio Gomes.

Nestes anos também executou vários painéis cerâmicos para edifícios: para o Hospital de S. João, para o Posto Alfandegário de Vilar Formoso e para a Pousada de Santa Catarina de Miranda do Douro, estes últimos da autoria do arquitecto Castro Freire.

No início dos anos 60 viajou por França, Itália e Inglaterra. Foi tema de uma exposição retrospectiva promovida pelo Secretariado Nacional de Informação e executou, entre outras obras, o painel cerâmico da Pousada de S. Bartolomeu, em Bragança, os murais do Palácio da Justiça do Porto e do Banco Pinto de Magalhães, cenários e figurinos teatrais, um fresco para o Tribunal de Justiça de Anadia, a ilustração da obra Aparição de Vergílio Ferreira, e seis painéis em grés para o Palácio da Justiça de Lisboa.

Nesta época, paralelamente à actividade artística, progrediu na sua já bem sucedida carreira universitária, na ESBAP. Em 1962 prestou provas públicas para professor, sendo nomeado primeiro assistente de Pintura em 1963. Mais tarde, exerceu funções de gestão (1974) e foi eleito Presidente do Conselho Directivo (1975), cargo que absorveu a totalidade do seu tempo até 1976.

Nos anos setenta dirigiu a parte estética do Espectáculo de Portugal na Exposição Mundial de Osaka, realizou cenários para teatro, ballet e cinema, executou vários painéis cerâmicos como a Grande Árvore do Hotel D. Henrique no Porto, hoje encerrado num vidro, ou o trabalho para a Companhia de Seguros Tranquilidade, também no Porto; ilustrou obras literárias e fez várias viagens ao Brasil e a Espanha. Na sua primeira viagem ao Brasil (1971), conheceu na Baía o escritor Jorge Amado e o artista Mário Cravo Filho. E na de 1977, ao Nordeste Brasileiro, encontrou-se com os artistas Sérgio Lemos e Francisco Brennand.

Em 1980 participou nas comemorações dos 100 anos da ESBAP. Nos anos seguintes, decorou a Igreja de Nossa Senhora da Boavista riscada pelo arquitecto Agostinho Ricca Gonçalves, com 9 vitrais e uma escultura. Voltou ao Brasil (Pernambuco, Baía, Recife). Pintou o enorme painel "Ribeira Negra" (40mx3m), que ofereceu à sua cidade e, posteriormente, foi executado em grés e colocado à entrada do Túnel da Ribeira. Nesta obra, o poeta Eugénio de Andrade viu "o magnificente historial da miséria e da grandeza da população ribeirinha do Porto (...)." (Ribeira Negra, Galeria Nasoni, 1989).

Em 1987 abandonou o ensino na ESBAP e em 1989 foi tema de uma exposição retrospectiva na Fundação Calouste Gulbenkian.

Nos anos 90, voltou às viagens, desta feita a Cabo Verde (S. Vicente, Santo Antão, Santiago e Fogo), à Índia (Goa), a Moçambique e ao Brasil (Recife); produziu arte pública como o painel de azulejos para a Estação de Sete Rios do Metropolitano de Lisboa e instituiu, em 1993, a Fundação Júlio Resende – "Lugar do Desenho" – em Valbom, Gondomar.

Em 2001, a Câmara Municipal de Matosinhos organizou uma exposição retrospectiva da sua obra e, em 2007, durante a comemoração dos seus 90 anos, foi homenageado no Porto com uma exposição antológica.

Teve uma longa carreira de professor, construída no ensino secundário, técnico e regular, e no ensino artístico universitário. E é autor de uma diversificada e premiada obra, marcada pelas viagens que foi fazendo ao longo da vida e pelos mestres que conheceu, que abrange essencialmente a pintura sobre tela ou mural, serigrafias e gravuras, vitral, painéis cerâmicos para obras de arquitectura, ilustração de livros e, ainda, cenários e figurino para teatro e ballet. Grande parte da sua obra é apresentada em exposições, individuais e colectivas, em Portugal e no estrangeiro, desde os anos quarenta, e está patente em muitos e prestigiados museus e colecções particulares em Portugal, na França, no Brasil, na Finlândia, na Noruega, na Bélgica e em Macau.

Pintou quase até ao fim da vida no Porto, a cidade que o inspirou e à qual sempre voltou.

Faleceu em Valbom, Gondomar, a 21 de Setembro de 2011, aos 93 anos de idade.

 

Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto - Júlio Resende. In UP - Universidade do Porto [Consult. 2013-10-22].
Disponível na www: <URL: http://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1000853>.
Vera Lúcia